Audiência debate políticas públicas sobre drogas no contexto da pandemia

 

Na manhã desta quarta-feira (26), a vereadora Michele Collins (PP) promoveu uma audiência na Câmara Municipal do Recife, via videoconferência, para tratar das políticas públicas sobre drogas no contexto da pandemia. O tema foi discutido por representantes de órgãos públicos, autoridades e especialistas no assunto. “Estamos vivendo um momento de caos devido ao coronavírus. O aumento do consumo de substâncias vem induzindo as pessoas à dependência química e isso causa mal ao dependente e à família”, afirmou a parlamentar.

 

Para Michele Collins, os temas relacionados aos usuários de drogas  estão sempre na ordem do dia.  Além de desenvolver um trabalho reconhecido na área, ela é presidente da Comissão de Direitos Humanos e Cidadania da Câmara e conseguiu a aprovação da criação da Frente Parlamentar  em Defesa da Família, da Vida e de Políticas de Drogas. “Quando falamos de drogas, não é só o dependente que é atingido, mas toda a família que fica desajustada. O apoio de todos aqui presentes tem ajudado muito essas famílias. Estamos aqui ouvindo e trabalhando em prol dessas pessoas, mesmo com todos os desafios que a pandemia nos traz”, afirmou a parlamentar.

O promotor de justiça de Pernambuco e coordenador do Centro de Apoio Operacional às Promotorias de Justiça em Defesa da Saúde (CAPO) do Ministério Público de Pernambuco, Édipo Soares, disse que a pandemia tem consumido as estruturas de saúde no seu enfrentamento e o acolhimento sem distinção é fator essencial.  “A questão da saúde mental e as drogas são os maiores problemas que o Ministério Público enfrenta em todo o Estado. A maior parte das nossas demandas refere-se à saúde mental. Lembremos que o lazer com a família foi tolhido em razão do distanciamento social e a saúde mental  tem uma relação direta com esses sentimentos de extravasar as nossas tensões. O melhor modelo de tratamento ainda está por vir. Não importa o gênero, cor e religião. Todos que precisam de ajuda precisam ser acolhidos.  Isso é o norte da nossa missão e temos que ser agentes acolhedores”.

O juiz titular do juizado do torcedor e criminal de Recife e ex-coordenador do Centro de Justiça Terapêutica do Tribunal de Justiça de Pernambuco, Flávio Fontes, disse que existiam instituições do setor público que não tratam adequadamente os dependentes. “O tratamento ideal ainda está por vir. As comunidades terapêuticas surgiram porque o Estado não dá conta e é preciso usar todos os mecanismos legais. Temos que ter uma visão com menos politização e mais eficiência. Não adianta saber muito e não praticar. Enquanto houver briga política, a gente só vai prejudicar cada vez mais a população”.

A coordenadora regional em Pernambuco da Federação Amor Exigente, Rúbia Helena Castro, ressaltou que o órgão está desenvolvendo atividades para ajudar as famílias disponibilizando lives e podcasts. “Compreendendo sempre os problemas, buscando soluções e ouvindo os depoimentos dos que mais necessitam”.

A coordenadora da pastoral da Sobriedade Cristã, da arquidiocese de Olinda e Recife, Lúcia Carvalho, destacou que a entidade atua desde 2003 e que vem ajudando a resgatar vidas. “Atuamos em oito paróquias. Nosso trabalho é ecumênico e a gente tem grupos de autoajuda por conta do momento da pandemia. Observamos a carência das pessoas em serem ouvidas e existem muitas recaídas no álcool. Não paramos de atuar nesse período atual. Gostaria de dizer também que os grupos de autoajuda precisam ser olhados com mais atenção pela sociedade”.

Angélica Lima, psicóloga do  Centro de Assistência Social da Polícia Militar de Pernambuco (CAS PMPE), disse que era importante acolher os militares para diminuir os transtornos psicológicos. “Os profissionais de psicologia e os psiquiatras trabalham no CAS e é importante mostrar para os policiais que é possível, sim, voltar à vida normal. Eles também são seres humanos que precisam ser cuidados e resgatados. Tem crescido o número de dependentes químicos e temos trabalhado nesse sentido”.

A presidente da Federação Pernambucana das Comunidades Terapêuticas, Rawilsean Calado, disse que as secretarias de saúde precisam cada vez mais se articularem. “Nessa maior articulação seria possível ajudar, mais ainda, as comunidades terapêuticas e nós poderíamos nos integrar cada vez mais à rede de saúde”.

Mestre em psicologia da saúde, Mauro Barros é ex-usuário de drogas e enfatizou a questão do acolhimento. “Destaco principalmente o trabalho nas comunidades terapêuticas. Temos equipes nas ruas, favelas, periferias e praças. As pessoas precisam de um amparo”.

A presidente do Conselho Municipal de Política sobre Álcool e Outras Drogas, Sulamy Borba, destacou que o Conselho estava muito feliz em participar do debate e pontuou que a cultura e o lazer precisam ser inseridos nos trabalhos que envolvem  a prevenção ao  uso abusivo de drogas. “E gostaria de enfatizar também a importância da vacinação dos profissionais do SUAS, rede complementar e a população em situação de rua”.

A Secretária-Executiva de Políticas Sobre Drogas do Recife, Ana Karla Andrade, citou ações da pasta. “Temos o trabalho móvel  “Acolhe Vida” com roteiros direcionados e triagem para tratamento. O dependente pode ser encaminhado para a comunidade terapêutica ou CAPS. Ofertamos um kit banho com shampoo, toalha e sabonete, entre outros trabalhos”.

Germana Pompílio, Simone Brito e Yury Ferreira, todos integrantes da Coordenação de Saúde Mental Álcool e outras Drogas, detalharam as ações do órgão e também enfatizaram o grande valor do acolhimento aos usuários. “Buscamos sempre melhoras para o atendimento com vistas à singularidade. Sem o acolhimento ideal não conseguimos oferecer cuidado nenhum à população. Estamos abertos para o debate sempre”, ressaltou Yury Ferreira.

O deputado estadual Cleiton Collins disse que era preciso parar de colocar culpa nas comunidades terapêuticas e parabenizou os profissionais envolvidos no combate às drogas. “Muitos não conhecem o trabalho desenvolvido nas comunidades terapêuticas e é necessário buscar mais informações.  Parabenizo todos aqui que, mesmo em um período de pandemia, estão ajudando as pessoas. As drogas estão à solta nas ruas, infelizmente”.

Ao fim da  audiência pública, a vereadora Michele Collins explicou os encaminhamentos que serão dados. Ela disse que era preciso juntar as proposições de todos os órgãos e as leis existentes para um novo debate e sugeriu, ainda, a publicação de uma cartilha. “O objetivo é unir todas as ações e sugestões sempre visando o bem-estar dos usuários. Com o diálogo a gente avança. A impressão de uma cartilha constando todos os serviços disponíveis para os usuários escolherem o que mais se adequa poderia ser uma grande ajuda. Vamos avançar nesse quesito”.